VIII Olimpíada de Matemática e Ciências premia seus vencedores de 2018
11/30/2018
Padre Luiz Alves de Lima assessora oficina na 4ª Semana Brasileira de Catequese
12/03/2018

Artigo – Sussurrando Deus

A grande e explosiva mensagem de Natal, destinada a mudar a face da terra e enchê-la de alegria, é na aparência insignificante: um recém-nascido colocado numa manjedoura.

Também nós, com tantos sinais pequenos e delicados, em tantos lugares pequenos e esquecidos, diariamente anunciamos Deus.

“Que devo fazer?”, perguntava Dom Bosco ao bom padre Cafasso.

“Anda comigo e vê!”, respondia-lhe o amigo e mestre.

Assim, Dom Bosco foi ao encontro dos jovens na prisão. Aquela experiência perturbou-o: “Dizia comigo mesmo: Estes rapazes deveriam encontrar fora daqui um amigo que se ocupasse deles, que os assistisse, os instruísse, os conduzisse à igreja nos dias festivos…”. Levava pequenos presentes, boas palavras, procurava fazê-los refletir; prometiam ser melhores. Mas quando voltava a encontrar-se com eles, estava tudo como antes. Uma vez, Dom Bosco desatou a chorar.

“Porque chora aquele padre?”, perguntou um dos jovens presos.

“Porque nos quer bem. Também a minha mãe choraria se me visse aqui dentro”.

Era assim o coração de Dom Bosco.

Para quem não tinha família, para quem se sentia só no mundo, para quem tinha perdido o afeto de alguém que lhe queria bem, para quem nunca tinha conhecido amor e se tinha sempre sentido rejeitado, encontrar-se no afeto paterno de Dom Bosco, materno de mãe Margarida e fraterno da comunidade oratoriana, era reviver ou viver pela primeira vez. Os rapazes não vinham à procura de um padre; vinham à procura do pai, do irmão, do amigo. Uma presença profundamente humana, boa e generosa, da paciência inesgotável, que lhe permitia colocar-se ao serviço do último que chegasse, a qualquer hora do dia ou da noite.

Testemunhou o padre Felice Reviglio: “… permitia-lhes que estivessem sempre ao pé dele, de modo que, mesmo antes de terminar o seu frugal almoço ou jantar, os rapazes entravam no seu pequeno refeitório e rodeavam-no. Apesar do incômodo que devíamos causar-lhe, tolerava com bondade os desabafos do nosso reconhecimento. E eu, talvez porque mais necessitado do seu zelo, pude muitas vezes, reanichando-me debaixo da mesa, colocar a minha cabeça nos seus joelhos”.

E o padre Paolo Albera: “Dom Bosco educava amando, atraindo, conquistando e transformando. Envolvia-nos a todos e por inteiro quase numa atmosfera de contentamento e de felicidade, da qual eram excluídas penas, tristezas, melancolias… Tudo nele tinha para nós uma poderosa atração: o seu olhar penetrante e por vezes mais eficaz do que uma prédica; o simples mover da cabeça; o sorriso que lhe aflorava sempre nos lábios, sempre novo e variadíssimo e, no entanto, sempre calmo; a flexão da boca, como quando se quer falar sem pronunciar as palavras; as palavras mesmas cadenciadas de uma forma em vez de outra; o porte da pessoa e o seu andar ligeiro e ágil: tudo isto exercia influência nos nossos corações juvenis como se fosse um ímã a que não era possível furtar-se; e, mesmo que pudéssemos, não o faríamos por todo o ouro do mundo, de tal forma nos sentíamos felizes com este seu singularíssimo ascendente sobre nós, que nele era a coisa mais natural, sem intenção nem esforço algum”.

O livro da pedagogia de Dom Bosco é a sua vida.

Os educadores não se tornam “vigilantes”: são pais, irmãos e amigos que ensinam a pensar, refletir, avaliar. A chave de tudo é a presença no meio dos jovens. Na mente de Dom Bosco a educação transmite-se através do contacto pessoal, quase num intercâmbio de energia. Enquanto pôde, Dom Bosco deixava tudo para estar presente no pátio com os seus rapazes. Para ele era simplesmente o modo de viver a Eucaristia: “Até ao meu último suspiro, tudo será para vós”.

No Sínodo em que participei, a voz dos jovens despertou-nos. Com cortesia pediram-nos que tivéssemos mais coragem para testemunhar com a vida aquilo que proclamamos e aquilo em que verdadeiramente acreditamos. Há necessidade de adultos testemunhas e não só dos homens da Igreja, porque no mundo há uma grande falta de paternidade e de maternidade. Devemos continuar a dar respostas, não só nas paróquias, nas escolas, nos oratórios, nos centros juvnenis, nas casas de acolhimento para rapazes da rua… A visão é mais ampla: nestes espaços, que me são familiares como salesiano, pode realizar-se uma verdadeira e autêntica, madura e sã, maternidade e paternidade. Por vezes um educador é amigo, ou deve ser um irmão para os rapazes, mas ser um verdadeiro pai ou mãe para os rapazes é um dos grandes dons que se deve continuar a oferecer. É transmitir a sabedoria da vida.

Na festa de Natal, celebramos a maravilhosa revelação da natureza do Pai, com o Qual Jesus é um só. Jesus é Deus e mostra que a sua pessoa é como um menino. Nunca na história sucedeu algo assim. Deus com o rosto de um menino. No centro da nossa fé não há uma ideia, mas verdadeira ternura para com os pequenos, os simples, os espezinhados.
Os nossos jovens deveriam ouvir-nos dizer que lhes queremos bem, e que queremos fazer um percurso de vida e de fé juntamente com eles. Devem ouvir que não queremos nem dirigir as suas vidas, nem impor como deveriam viver, mas que queremos partilhar com eles o melhor que temos: Jesus Cristo, o Senhor. Devem ouvir que estamos aqui para eles e, se no-lo permitirem, para compartilhar a sua felicidade e as suas esperanças, as suas alegrias, as suas dores e as suas lágrimas, a sua confusão ou a sua busca de sentido, a sua vocação, o seu presente e o seu futuro.

Como se demonstra a existência de Deus?

Um menino perguntou à mãe: “Acreditas que Deus existe?”.

“Sim”.

“Como é?”.

A mulher apertou o filho a si, abraçou-o com força e disse: “Deus é assim”.

“Compreendi”, disse o menino.

Os jovens devem sentir que estamos a sussurrar-lhes Deus. Talvez não consigamos uma ortodoxia e uma ortopráxis extraordinárias, mas sentirão, através da nossa pequena intermediação, que Jesus os ama e os acolhe sempre.
Então, como Dom Bosco naquelas últimas Missas na Basílica do Sacro Cuore, compreenderemos que terá valido a pena.

Pe. Ángel Fernández Artime – Reitor-Mor